Thursday, December 14, 2017

Dicionário Amoroso do Dante :: Quarto Verbete : Tempo

6 anos


Lembrança viva e das mais antigas que tenho da infância: certa noite meus pais recebiam visitas (coisa rara) e me puseram para dormir. Acordei algum tempo depois com a luz e o vozerio da sala, para onde me dirigi, tímido e confuso. Ao dar com o grupo pergunto: "Hoje é amanhã?"

(E aí me lembro de meu pai vindo carinhoso em minha direção para reconduzir-me ao quarto e, claro, depois anotar a frase)

A concepção de tempo das crianças é, por óbvio, distinta da nossa. E mesmo entre nós, adultos chatos, encontraremos diferenças. E aí misture o ser criança com o autismo e com a grande ansiedade. Não é mole, não. Se estou vestindo a calça, acredito que a única coisa possível a ser feita depois de vestir a perna direita será vestir a esquerda. Com o Dante não é assim, o tempo é outro. Pode ser poético dizer que aprendo com isso (e é verdade), o stress, contudo, de levar a cabo tarefas rotineiras chega ao Pico do Perdido, que nos observa quieto.

Assim, um dos maiores ganhos do Dante, para a sua organização e bem-estar (e o geral da nação), foi entender o conceito de depois, expresso no gesto das mãos fechadas girando uma sobre a outra. Ele não só entende quando vê como também faz, às vezes girando as mãos no sentido inverso, não se pode ter tudo. Quando empacamos em algum querer e ele entende que isso será depois, faz o gesto, sorri sorrimos aliviados.

Ainda um outro gesto organizador: estender a mão espalmada para que mostremos, nos dedos, o que ele já fez no dia. Ou o que fará. Simples e maravilhoso assim. Acho que foi o seu mediador Robson que o ensinou. Ele gosta tanto que, claro, pede setenta vezes ao dia.

Para acompanhar: "Time is", do It's a beautiful day". For those who really love / Time is eternity



A PROCISSÃO DOS PATOS SEM CABEÇA


Que são surrealismo, dadaísmo, teatro do absurdo, dodecafonismo, literatura fantástica, que fizeram Jarry, Beckett, Berg, Murilo Rubião perto daquilo a que chamamos vida? Quando pequeno ouvia dizer 'isso só na novela das 8', novamente a ideia de que a ficção, a arte em geral, pode ser muito mais doida, incoerente e absurda que a vida. Nada disso, tetrarca. A vida pode ter três expulsos e jogar sem goleiro, mas se o papo é incoerência absurdez doidice, sempre dá de dez com direito a ola e olé.

Por exemplo, como uma banda mexicana de rock progressivo poderia, em 1982, ter feito música descrevendo as manifestações que ocorreram por todo o Brasil daquela galerinha de verde-amarelo que achava que fazia história sem enxergar que na verdade era manipulada pela mídia que come na mão dos grandes interesses das classes dominantes? Porque a última música do lado A se chama precisamente "La Procesión de los patos sin cabeza".

Como essa banda de nome The High Fidelity Orchestra conseguiu fazer a trilha do que só aconteceria no Brasil mais de 30 anos depois?

Só na novela das 8.

PS: By the way, que banda, que disco! Apenas 25 minutos (cabia no lado A) de um prog com toques crimsonianos e RIO. Me lembra bastante o que anos depois faria a também excelente Dificil Equilibrio, da Catalunha.

PS2: Feliz aniversário, Dilma! tmj


Wednesday, December 13, 2017

Dicionário Amoroso do Dante : Terceiro Verbete :: Balanços


 Tem aquele pai no Rio Grande do Sul que mandou fabricar balanço portátil para poder levar seu filho autista pra lá e pra cá. Literalmente. O pequeno Bruno adora balanços, assim como o Dante. A ideia do pai foi tentar quebrar um pouco a rotina do filho (ah, olha aí o verbete anterior) porque o gurizinho queria sempre o mesmo balanço do condomínio. Ideia genial.

Dante, assim como o Bruno, ama balanços. Creio ser uma forma de eles encontrarem algum equilíbrio, em meio ao amontoado de sensações tudo ao mesmo tempo agora. Dante pode ficar horas. Ao contrário de Bruno, gosta de trocar, preferindo quase sempre os ocupados ou quebrados ou em cima de poça. Pra contrariar. À falta de balanço portátil, tento inovar com diferentes espaços, diferentes balanços, de modo que já peregrinamos por muitas praças e parques da cidade. O Parque do Flamengo (aqui), com mais balanços e cachorros que crianças é refúgio dos fins de semana.

Ah, porém mais que balanços diferentes, Dante curte imenso se aparece alguém que não o pai para empurrá-lo, quando então o patifinho ingrato enche a mão para me dar um tchau bem dado.

Até finjo tristeza, mas adoro. De maneira que, se quiserem aparecer, welcome.

6 anos, com Keila

6, com Giulia

Com Camila, 6


Aos 7 com Tio Felipe

Aos 7 com Lara




Aos com Isabela



No refúgio

Tuesday, December 12, 2017

Dicionário Amoroso do Dante : Segundo Verbete : Rotinas e Manias

Com um ano

O indivíduo com autismo gosta de rotina e, não raro, de manias. Gostar de rotina até ajudou um pouco porque, quando ele bem menor, ou era isso para tentar organizar o caos ou era o desespero. Assim, horário pra tudo. Ele crescendo, passamos a flexibilizar um pouco, nada de quartel, mas, ainda assim, rotina.

Já as manias deixariam até Sidarta Gautama doido. O balanço deve ser empurrado deste modo, o banho dado assim, a coberta deve ser jogada ao chão assim que se deita, o xixi deve ser feito antes de se enxugar. Isso parece chato? Não acho. Aliás, temos uma série de rituais ao sair da pracinha: ele deve galgar as minhas costas, de onde descerá na frente do botequim em que há o relógio. Depois andaremos até o sinal vermelho. De lá prosseguiremos, com eventuais interrupções, até um prédio em cujo jardim há pedrinhas brancas. Ele pegará duas ou três. Ameaçará colocá-las na boca, só para me chatear. Andamos com elas até o portão de uma casa onde moram dois cachorrões. Na frente do portão ele atira as pedrinhas e saímos correndo de mãos dadas até a esquina, eu pisando exageradamente forte, e deixando para trás o latido grosso e irritado dos caninos. Na esquina sempre nos abraçamos. 

É das coisas de que mais gosto no dia. Acredito que ele também.

Monday, December 11, 2017

Dicionário Amoroso do Dante : Primeiro Verbete : Autismo

Dezembro de 2012, completando 4


Há controvérsias, mas Dante tem um autismo secundário, decorrente da Síndrome de West que o acometeu quando tinha quatro meses. West é, basicamente, epilepsia infantil. Machado e Dostoiévski tinham suas epilepsias, mas desenvolvidas tardiamente (ninguém está a salvo), então deu tempo para Roskolnikov e Capitu. A infantil é, na palavra doce da primeira médica do Dante: catastrófica.

 Há quem diga que não existe autismo secundário mas eu acho essa hipótese, não por acaso aventada por sua ótima neuropediatra, plausível. Autismo secundário ou simplesmente autismo, TEA talvez fique melhor mesmo, esse amplo espectro que agasalha crianças e indivíduos bastante funcionais (alguns são craques, como o Messi) até outros dentro do 'autismo clássico', vivendo como que num mundo só deles com pouquíssima interação. Acho que  Dante está no meio. Nem craque nem encasulado. Não fala. Mas não quero sugerir que quem está aqui deve tentar chegar ali. Evolucionismo e autismo não casam. 

As controvérsias são imensas, como tão bem explicou Andrew Solomon no seu já clássico Longe da Árvore (aqui). Bem resumidamente: aceitar o autismo como uma condição, como um traço identitário ou detestá-lo como uma doença e combatê-lo. Acho que o pai do Dante está bem no meio. Já aceitei, já detestei. Para todos os efeitos, uma resposta quando perguntam na pracinha (coisa que não me incomoda em nada, pelo contrário): Mas o que ele tem? E posso responder com alguma segurança.

Autismo também. Porque há transtorno de ansiedade (e como), há transtorno opositivo-desafiador (de quando acorda ao beijinho de boa-noite) e há, ainda, infelizmente, a maldita epilepsia, com insidiosas crises focais.

E há o menino que gosta de calça jeans, Laboratório do Professor Policarpo, ônibus trepidante, balanços, chocolate, água, suco de cupuaçu, bolas de gás, algumas músicas, iogurte, umas brincadeiras malucas que fazemos e varanda (para atirar o que tem às mãos). 

Até onde apurei, tem o riso e o sorriso mais sublimes do mundo, em toda a história da civilização humana.

E olha que já se vão 200.000 anos.

Dicionário Amoroso do Dante



Faltam nove dias para o nono aniversário do Dante, então começo pequena série inspirada nos dictionnaire amoreux do Jean-Claude Carrière. Bem, não é só Carriére, muitos outros vêm escrevendo dicionários amorosos desde a virada do milênio. Só neste ano saíram cinco: Santo Antônio, República, Suíça, África, Mozart.

Dos que conheço, porém, os do Carrière são insuperáveis, sobretudo o da Índia, perto do qual os do Egito e da Grécia se apequenam. Tenho o do rock: informativo, mas falta amor. Já o ótimo Vargas Llosa foi incumbido de escrever um da América Latina. Falhou feio ao escrever um ótimo dicionário da... literatura latino-americana. Mapuches, dendê, Valparaíso, tango, futebol, tudo de fora.

Difícil escolher os verbetes. Como faltam nove dias para o nono aniversário do homem da minha vida, serão nove.

( E este não é o primeiro )

Saturday, December 09, 2017

Ouviram do Ypiranga



Tenho sorte de ter um casal querido morando ali. Ou não teria conhecido o bairro. Ou muito me engano ou pouco se fala no Ypiranga, o bairro mesmo do virundum, do decassílabo primeiro do hino. As margens plácidas ainda estão ali, pouco margens e nem tão plácidas, mas resistem. Para lembrar, a Rua do Grito. Perto da Rua Flor Encantada e da Travessa Velho Amor. 

Bairro em franco processo de verticalização. Agora com o prefake, então, nem se fala. É correr para ver as casinhas, os pisos de caquinhos, os cobogós (aqui), os painéis azulejares (aqui), os grafites, os botequins amados (aqui), as aparecidas, o oratório!

























Friday, December 08, 2017

O Ondes Martenot no Rock Progressivo (Canadense)




Ressaltei na postagem anterior (aqui) que o Ondes Martenot foi de todo ignorado pelo movimento progressivo mundo afora. Com exceção, em termos percentuais isso daria zero anyway, do movimento prog em Quebec na primeira metade dos anos 70. Se os compositores eruditos franceses usaram o instrumento inventado por um Professor Girassol francês, nada mais esperado que Quebec fizesse o mesmo. Aquela história: ser mais realista que o rei, mais papista que o papa, já que nem a nata do prog francês usou o misterioso Ondes Martenot.

No progressivo canadense há pelo menos dois registros: a banda one-shot Et cetera (1976) e... o Harmonium! Detalhe: em ambos os casos tocado pela mesma Marie Bernard Pagé, que na primeira banda é integrante (também canta) e, na banda maravilhosa do Serge Fiore, uma convidada.

O que dizer do resultado? No Et cetera, até onde percebi, o Ondes Martenot tem proeminência nas dois últimas faixas. Na última, então, algo como aquele final assombrado e assombroso da "Dancing with the monlit knight". Só que com o Martenot. 

Já no Harmonium, neste álbum duplo chamado L'Heptade que perdeu um pouco a mão, aparece em "L'Exil". Sobre uma camada, grossa, de mellotron, Marie toca o Ondes Martenot. Saiu do estúdio e virou a primeira porta à esquerda. Para entrar na História.






Ondes Martenot, anyone?



Se uma das características do rock progressivo é justamente o uso de instrumentos incomuns no rock, chega a surpreender que não se tenha usado (com uma ou duas exceções) o Ondes Martenot, esse precursor do theremin e, por que não?, do moog.

Por outro lado, o instrumento recebeu ampla acolhida nos meios eruditos, verdade que mui provavelmente pelo fato de sua invenção, em 1928 pelo francês Maurice Martenot,  ter sido contemporânea à produção de muitos compositores. Não por acaso muitos também franceses, Milhaud, Messiaen, André Jolivet. O compositor do "Quarteto para o Fim dos Tempos" foi quem mais usou, mas o concerto para martenot e orquestra (1947) é do Jolivet.

Curiosamente ou não, o martenot tem sido empregue com alguma frequência pelo Radiohead, graças ao guitarrista Jonny Greewod, admirador confesso de Messiaen. "How to disappear completely", do Kid A, é muito ilustrativa. No vídeo que posto, ao vivo, há dois martenots no palco!






Wednesday, December 06, 2017

O Massacre da Tribo Osage


Muito interessante como os EUA gostam de cagar regras para o mundo, sendo que sempre fizeram muito mal o dever de casa. Melhor: nem fizeram o dever de casa, rasgaram as páginas do livro, mijaram em cima, cuspiram na cara do professor.

(Fora de casa, então, nem se fala)

A história do massacre dos índios Osage na década de 1920 é verdadeiramente estarrecedora. Primeiro a tribo foi deslocada de suas terras originais (ouvi alguém dizer pogrom?) para ser colocada numa reserva estéril em Oklahoma. Depois descobriram que a reserva não era tão estéril assim, mas riquíssima em petróleo. Daí o massacre, com refinamentos de deixar nazistas, stalinistas, ustashi e ruralistas brasileiros de queixo caído.

A história está no livro Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI, ainda inédito no Brasil.

Há vídeos no youtube.

Os Osage sobrevivem. Não apenas têm língua própria, como esta é escrita em alfabeto só dela (!). 

PS: Existe uma banda de rock progressivo italiano dos anos 70 chamada... Osage Tribe! (Tenho o disco) All things are a part.



Wonderland, Michael Nyman



Quando comprei o CD de Wonderland (Michael Winterbottom, 1999) eu já inaugurara, com Gattaca, a prática de ouvir as trilhas antes de ver os filmes. As trilhas me levaram aos filmes e não o contrário, mais comum.

Quando tentei ver o filme, há coisa de quinze anos, não passei dos primeiros vinte minutos. Outra noite sentamos com um Chardonnay geladinho e assistimos mesmerizados de cabo a rabo, só parando para encher as taças.

Aqui uma Londres que não se vê nos filminhos da Julia Roberts ou da Gwyneth Paltrow. Filmado como que em filtros Lo-Fi e Sutro do instagram, só não nos perturbou demais porque estamos já um pouco vacinados, com Leigh e Loach.

Há uma cena de 9 Canções (2004), em que o casal resolve parar de fazer amor para assistir ao concerto de 70 anos de Michael Nyman. (Eu diria que não pararam de fazer amor.) Cena que revela a importância que Winterbottom confere à música e o quão prolífica foi a colaboração entre os dois. Basta dizer que a filha mesma de Nyman (Molly!) compôs a trilha para um outro trabalho do diretor, The Road to Guantanamo.

Molly, Eddie, Nadia, Dan, Debbie, Bill, Eileen, Jack, Darren, Frank. Qual a mais bonita? Diga sem se envolver com o personagem. É difícil. Mas acho que Debbie. Ou Darren.

Camila ouviu aqui "Onward", do Yes. Há quem ouça "We are the champions". Uma música belíssima, a ponto de acharmos que o filme poderia tê-la usado mais.