Tuesday, April 23, 2013

Aqui Morou João (Guimarães Rosa)





Neste pequeno prédio da Rua Francisco Otaviano, no Arpoador, morou João Guimarães Rosa. Não quero tingir este texto de fel, mas não tem como não lembrar: Michael Jackson subiu o Dona Marta para gravar clipe e ganhou estátua. Um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos morou aqui por cerca de 15 anos e não há sequer plaquinha a lembrar isso.

Talvez Guima tenha preferido assim. Guima universal e mineiro. Até onde sei, não dava muita bola para a praia. Mas é preciso lembrar que, se Copacabana era já nos anos 50 uma praia badalada, Ipanema era uma lonjura, um ermo, quase que uma das fronteiras da cidade. Só isso talvez explique ele ter preferido morar por aqui, mesmo sabendo (provavelmente) que na cidade havia um bairro de nome Encantado (onde morou Cruz e Souza). Isso e o fato de seu escritório, no apartamento que ocupava todo o quinto andar, dar para a pequena Praia do Diabo. O diabo na rua, no meio do rodamoinho, o diabo na praia, o diabo na consciência do personagem-maior, o Riobaldo, que com ele se engalfinhou até sair purificado para amar Diadorim. Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...

Pois foi nesse pequeno prédio, dos anos 20, a primeira construção da rua depois do Forte de Copacabana, que nasceram personagens mais reais que muita gente por aí. O Riobaldo, a Diadorim, o Zé Bebelo, o Hermógenes, o Dito, o Miguilim, a Chica, a Drelina, a Vovó Izidra, o Manuelzão, o Grivo.

Foi aqui que Guima recebeu a plêiade de seus ilustres tradutores, como  o alemão Curt Meyer-Clason e o italiano Edoardo Bizzarri, com quem trocou cartas antológicas (que destaquei aqui). Aqui Guima vivia com seus gatos persas.

E foi aqui que Rosa se encantou, em novembro de 1967, apenas 3 dias depois de sua tão adiada posse na Academia. (ABL não serve pra nada mesmo ::: Rosa adiava porque sabia; os acadêmicos, da instituição que mais tarde abrigaria nomes como Pitanguy, Roberto Marinho e Paulo Coelho, insistiam).

Mas a história do apartamento não termina aqui. No ano seguinte viria o famigerado AI-5. Os gorilas babavam bílis atrás do Geraldo Vandré. A viúva de Rosa, Aracy, aqui o escondeu. Por dois meses.

Tudo isso e nem uma plaquinha.



Defronte ao prédio há frondosa amendoeira. Pelo tamanho Rosa deve ter lavado seus olhos míopes miguilins nela. A vontade que dá é, com um estilete, gravar em seu tronco rol de reis:

Sargon
Assarhaddon
Assurbanipal
Teglattphalasar, Salmanassar
João Guimarães Rosa
Nabonid, Riobaldo, Nabopalassar, Nabucodonosor
Diadorim
Belsazar
Sanekherib
Miguilim.

E era para mim um poema esse rol de reis leoninos, agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelas cilindros de ouro e pedra, não pelos bronzes oficiais das prefeituras, postos sobre as reais comas riçadas. Só, só por causa dos nomes.


1 comment:

Raul Agostino said...
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