Monday, November 20, 2017

E cada pingo ensopava a minha segunda




Hoje amigos e inimigos devem ter postado nas redes sociais doçuras como "Ah que diazinho gostoso pra ficar em casa", "Um dia bom pra ler um livro" e outras djavanices. Não têm filho pequeno, claro. Não digo que esta chuvarada medonha de hoje foi surpresa porque a mãe do pequeno Caio, colegas de pracinha, já me advertira ontem. Ela sabe tudo e sempre me adianta, inda que os prognósticos não sejam propriamente alvissareiros.

Dia pluvioso, on the top of that feriado.

O Dante gosta de chuvas, num de seus inúmeros paradoxos. Digamos que gosta da contemplação (se eu não estou perto), mal percebendo que é a chuva que o impede de fazer a segunda coisa que mais ama na vida: rua, palavra que fala com perfeição.

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo. 

   < carlos >>


Dante gosta de chuvas, contemplá-las da pequena varanda, em meio ao rebanho de figueiras amarelas.


Sunday, November 19, 2017

Harumakis de Feijoada, enfim



Com a facilidade do fornecimento -- a Tijuca conta com dois maravilhosos empórios de produtos orientais -- da massa de harumaki, tornamo-nos dois harumakeiros de primeira, principalmente com recheio de porco casado com temperos indianos e tailandeses.

No Comida di Buteco do ano passado, dois botequins apresentaram iguarias com recheio de feijoada: o Bar do Mariano serviu um hot de feijoada, bom porém carregado no sal, e o Bar do Alto, no Alto do Morro da Babilônia, brindou-nos com rolinhos de feijoada perfeitos.

A ideia de fazer harumaki de feijoada veio daí e perseguia-nos desde então. Convidados para a feijoada de aniversário dos 50 anos do Renato em Paquetá, vislumbramos a oportunidade. Usamos o feijão da feijoada e um outro, vermelho, separado para este fim. Usamos a carne seca da feijoada. O feijão, por óbvio, deveria estar engrossado ou seria impossível fazer os rolinhos.

Deu certo demais. Os vinte rolinhos sumiram antes que pudéssemos tirar foto (a que encima a postagem não é minha). Quem saiu pra pescar um minutinho já não encontrou nada. E três horas depois ainda descia gente das barcas perguntando se aquele cheirinho bom era dali.






Saturday, November 18, 2017

A Quinta do Prokofiev



Passei a semana inteira ouvindo versões da Quinta do Prokofiev. Acho ouvi umas dez. A prova de fogo é um trecho do Adagio já descrito como um clímax torturado. Para meu fraco juízo, este trecho deve soar como a passagem de ciganos (ou buriatos) por uma tempestade de areia no deserto. Não pode ser lenta mas tampouco pode ser ligeira demais. Algumas francamente me desapontaram. Eu já desistia e pensava em comprar amanhã cedo agulha pra ouvir no toca-discos a leitura do Bernstein que tenho em vinil comprado em 1985.

No apagar das luzes da semana conheci a de Andreas Delfs, à frente de uma orquestra de Zurique.

Perfeita em tudo.

Aliás, tivesse Sergei composto apenas esta, não seria já o maior?


Friday, November 17, 2017

Corinthians, 1977



Não gosto do Corinthians e isso independe de eu ser vascaíno. Eu não gostaria mesmo que não ligasse para futebol. Mas uma das minhas lembranças mais ternas que tenho do meu pai está curiosamente ligada a esse time e isso foi em 1977 quando enfim terminaram jejum que já durava 22 anos ( em tudo que é lugar dizem que são 23, não sabem contar ) e eu, garoto irresponsável, fiquei jogando bola depois da saída da escola fingindo esquecer a hora em que minha mãe me buscava todo dia. Minha mãe fazia transporte escolar, então conhecido como condução, o que a ajudou muito na separação do meu pai, financeira emocional e blablablamente. Ela fazia condução então tinha a hora toda regulada. Eu não estava no local combinado de sempre, estava lá em cima na quadra perto da piscina jogando bola. Quando enfim desci, um breu. Entendi tudo. Ela já tinha passado. Não existia celular. Não tínhamos telefone. Fiquei ali quieto, paralisado, cheio de culpa, remorso, pavor. Tudo escuro na Conde de Bonfim. Coisa de uma hora depois aparece meu pai em seu chevete vermelho. Ele nunca vinha me buscar. Não que ele fosse brigão, mas acho esperava uma bronca dura e merecida. Eu dava. Ele chegou, olhou pra mim e falou:

-- Que isso? Só porque o Corinthians foi campeão?

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Chorei agora.

Meu pai, um tímido, nunca sentou comigo e falou coisas como: 'Evandro, é importante ser tolerante etc'. Nunca. 

Ele ensina assim.

Sunday, November 12, 2017

Crônicas Cunhenses III :: As Cervejas Artesanais



Inocente, saio de casa achando que era só a Wolkenburg, mas ainda na estrada Guaratinguetá-Cunha descubro que o panorama das cervejas artesanais de Cunha é bem mais vasto. Num restaurante de estrada conheço a Griga's e já no perímetro urbano de Cunha visitamos o ótimo brewpub da Reale: grandes birras, lindo growler, garrafas belíssimas que me lembram a italiana Baladin.

No dia seguinte, no Drão, acompanhamos moqueca com IPA da Black Fin, sem dúvida a estrela da parada. Antes prováramos a pilsen da própria Wolkenburg, apenas ok. O sábado ainda nos traria surpresa veramente artesanal: numa cooperativa de produtores rurais, uma cerveja com mel que acabara de ser deixada por lá para ser comercializada. Tão fresca trazia ainda abelhas aferroadas ao rótulo. No almoço no pub 81, com seis torneirinhas, uma white IPA da Black Fin escolta o hambúrger de feijão fradinho.

Então vai contando: a Wolken, a Griga's , a Reale, a Fin, a do Apiário Alto da Serra. Faltou só provar a Teixeira. Eu diria que nada mal para um município de 20 mil habitantes.






Saturday, November 11, 2017

Locanda della Fate :: O Show



A crítica especializada italiana sói ser bastante azeda em relação ao vocal das suas bandas de rock progressivo. Já no primeiro livro que li, Paolo Barotto elogiava o Museo Rosenbach, com exceção do vocalista, segundo ele problema frequente da cena italiana dos anos 70.

Façam-me o favor, Signor Paolo Barotto e todos os demais surdos para o fato de que reside precisamente na voz uma das forças e características mais marcantes disto que deixou de ser apenas uma cena para ser todo um gênero em si próprio: o rock progressivo italiano.

Gosto de dividir essas vozes em três categorias: a dos 'roufenhos' (Alvaro Fella do Jumbo; Stefano Galifi, do Museo; Vito Paradiso, do De De Lind), a dos suaves e melódicos (Cabanes, do Reale Accademia di Musica; Aldo Tagiapietra, do Le Orme; Marcello Dellacasa, do Latte e Miele) e a dos inclassificáveis (Alan Sorrenti, Francesco Di Giacomo, Demetrio Stratos).

Leonardo Sasso, do Locanda della Fate, é a síntese perfeita entre as duas primeiras categorias. Pelo timbre da voz, um roufenho, quase um baixo (e aqui penso num Enzo Capuano). Pelo caráter dir-se-ia pastoral da música, um melódico. Mais que isso, una dolcezza infinita.

Vê-lo e ouvi-lo ao vivo cantando as músicas que ouço ininterruptamente há mais de trinta anos foi emoção grande e não fossem as fotos e autógrafos eu diria que, numa noite de sexta-feira, exagerei no vinho e sonhei com tudo aquilo.

Mas foi bem mais bonito que um sonho.





Amor que uma vida não dá conta





Crônicas Cunhenses II :: Era um burrinho pedrês


 Encontrar nas pedras portuguesas de Cunha toda uma tropa, tendo à frente ele, miúdo e resignado, que já se chamou Sete-de-Ouros, Brinquinho, Rolete, Chico-Chato, Capricho, mas que passou à eternidade mesmo como burrinho pedrês apenas.

Será mesmo ele, tão mineiramente mineiro, em terras paulistas? Dou fé: vi a marca-de-ferro: um coração no quarto esquerdo dianteiro. Que os ciganos, que o raptaram, tentaram apagar.



Tuesday, November 07, 2017

Gozando Junto :: A Exposição



Gozando Junto é uma 'série' aqui no blog, alcançando já 28 postagens. Não chega a ser uma tag (está dentro de Fotografia), mas é série algo persistente, que vai desde maio de 2013 (aqui) a agosto de 2017 (aqui). Seriam mais postagens, houvesse mais disciplina. É um projeto, dos muito pessoais e inúteis, como o dos botequins velhos, das serralherias, patrimônio em geral. O dos botequins velhos virou exposição (aqui), itinerante e ainda circulante, então o Gozando Junto virou também.

Não é bem uma seleção das melhores fotos, foi o que deu pra fazer, entre Dante, aulas, inventário e os mesmos sem roteiro tristes périplos.

Para quem ainda não conhece  a Gozando Junto, trata-se de registrar desconhecidos tirando fotos. A exposição tem 31 registros que vão de um botequim em Maria da Graça a um templo na Tailândia, de uma mesquita em Marrocos a um museu em São Paulo, de São Januário a Istambul, da África do Sul ao Grajaú, dentre outros lugares e situações.

 A fotógrafa e gentil colega Fátima Vollu escreveu a apresentação :


Olhar o outro, pelo outro.


Um olhar a partir de trinta e um olhares.


O olhar do outro passa a fazer parte do seu olhar, do seu recorte.


Evandro nos mostra em imagens o ato de fotografar. Registra o espaço / tempo que as pessoas escolheram para guardar em imagem algo significativo para elas, tal como Barthes aborda em A Câmara Clara.


O espaço é ressignificado com olhar singular. Evandro não o vê de forma isolada, mas inclui cenas, histórias vivas e registros que se tornarão memória dessas pessoas anônimas.


Se apropria das narrativas desses anônimos e cria novas. Ao fazer isso, se aproxima destas pessoas e de suas histórias, com imagens que nos trazem referências visuais dos fotógrafos / fotografados: roupas, poses, escolha do local e do enquadramento para o click. Mas entre estas percepções e a leitura de quem as observa há muito espaço para imaginação e narrativas diversas que serão construídas na relação com o público.


É isso que as imagens da exposição trazem: oportunidades para viajar junto com os olhares de Evandro. Instigam o público a investigar cada detalhe, onde fotógrafo, fotografados e espaço interagem.

Crônicas Cunhenses I :: Abertura dos Fornos

Masakazu Kusakabe no ICCC


A cerâmica em Cunha teve início em 1975. Essa história de fazer da abertura dos fornos um evento, 13 anos depois. Nada mais merecido: a abertura dos fornos, seja ele noborigama ou não, é um evento. A multidão de câmeras o prova. A emoção dos ceramistas, seja um experiente seja um neófito, idem. A paixão com que mestres com mais de 50 anos de barro nas mãos discutem como determinado detalhe foi alcançado é argumento definitivo de que estamos diante de evento único. Porque nunca se sabe ao certo o que o fogo fará com argila e esmaltes. Um pouco como fazer cerveja. Um pouco como as fornadas de pão-delícia da Camila.

Aldea Terras de Cunha (e 9 seguintes)








Primeira peça

Forno sem fumaça no Instituto da Cerâmica de Cunha ( e 7 seguintes)







Where ovens do have names ::  Samadhi


Sunday, November 05, 2017

Só depois é que amamos / A quem tanto amávamos



Na tarde em Cunha, entre flamboyants e trissar de andorinhas, ler Ruy Espinheira Filho no banco de pedra ::

Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.