Saturday, April 01, 2017

Era aqui que eu queria chegar



Pampi sempre reclama quando eu cochilo durante os filmes, isso lá pelas 10 horas. Às vezes já pergunta, antes de começarmos, 'Mas vc não vai dormir não, né?', ao que respondo baixando a cabeça, sem graça. Em contrapartida, sempre acordo antes das 6 e ela naquele sono grosso.

Nesta hora Pampi tem um cheirinho morno, um cheirinho de murta, suave como pelúcia, acorde que nunca finda, um acorde que não acorda, mesmo com os beijos, que se demoram no rosto, no cabelo, nos ombros.

Então desço da cama e vou para a poltrona da sala, onde gosto de reclinar e ficar uns minutos. Chovia e fiquei preocupado com o show de hoje à noite do Elton John, Elton Jones que é como minha mãe sempre falou, já imaginando que teríamos que comprar aquelas enormes capas plásticas nos ambulantes, como a que comprei para o show do Roger Waters, mas a chuva nunca veio.

Percebo que a chuva aperta, mas que há manchas azuis no céu, como retalhos em uma calça jeans. Imagino como seria bom viesse um arco-íris, vou ter com a gata, que continua em silêncio e sem comer, e volto para o cheirinho morno. Pampi continua no sono grosso, mas quando, em resposta aos beijos, os lábios desenham sorrisos, me pergunto no que estará a sonhar.

Abro um pedacinho mínimo da cortina para tentar ler ao seu lado, ao que ela franze a testa. Lembro-me de um personagem de Knut Hamsun que, após ter construído cabana onde passará sozinho o longo inverno, e isso depois de ter pintado a casa de uma mulher por quem se apaixonara, esse personagem se pergunta: "Era aqui que eu queria chegar?".

Saio do quarto novamente, faço o café, me sento ao computador. Quando me viro para espiar o Perdido, o arco-íris.

Era aqui que eu queria chegar? Era.

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