Thursday, August 17, 2017

Morre Drummond, há 30 anos

Amendoeira em frente ao prédio de Carlos, na Conselheiro Lafaiete


Estava de saída para o IBEU, naquela manhã de terça há exatos trinta anos, quando soube pela minha mãe que o Drummond morrera. Peguei uma sua antologia, a ótima Seleta da José Olympio, comentada pelo Gilberto Mendonça Teles (que escreveria a introdução do meu primeiro livro daqui a sete anos) e fui para o curso. Nada mais justo: eu recém chegara de Chicago, para onde levara apenas um livro: o Reunião. Então as coisas se encaixavam nesse agosto desencaixado: a professora perguntou se alguém tinha algo a dizer e eu falei da morte do Drummond, abri o livro e li "Os ombros suportam o mundo". Todo mundo aplaudiu e eu inflei como um baiacu. Mas o Drummond, morto.

Na volta esqueci de pegar o troco com o trocador do 422 e de novo me enchi de orgulho: deve ser por causa da morte do Drummond.

Soneto de maio

(Vinícius; Rio de Janeiro , 1957)

Suavemente Maio se insinua
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu.

Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel.

Raia a aurora tão tímida e tão frágil
Que através do seu corpo transparente
Dir-se-ia poder-se ver o rosto

Carregado de inveja e de presságio
Dos irmãos Junho e Julho, friamente
Preparando as catástrofes de Agosto...

Ouro Preto, maio de 1967 
Café e Bar Outeiral, esquina da Conselheiro Lafaiete, onde Carlos tomou pingados

Drummond curtiu o post do Bandeira (Ou Facebook circa 1956)




Drummond curtiu o post do Bandeira
elogiando-lhe a décima edição
a timeline de Manu ficou faceira
com a visita do amigo esquisitão

Stalkeando tudo, mira e vê
o mineiro que atende por João
De livro novo, fica bem frustrado
quase ninguém deu like no sertão

Sorte mesmo parece ter o Mário
De tudo à parte, em meditação
sobre o Tietê onde mergulha fundo
há dez anos virou constelação


PS: A amiga Cristiane Brasileiro, sabe-tudo de Mário, disse-me que ele "seria o  mais badalativo. Criaria muitos grupos no fc. Ficaria com LER de tanto digitar. Só iria onde tivesse wifi. Etc". Por isso mesmo, Cris, por isso mesmo: sorte dele já ter se encantado em 1956.


Wednesday, August 16, 2017

Crônicas Siamesas VII ::: A Culinária Lanna



Inventei-me uma dica de viagem que proíbe excessos no dia do retorno. Excessos gastronômicos. Nada de experimentar aquele prato, aquele tempero, aquela bebida, tantos aqueles. Há alguns anos, em minha última noite em Goa, neguei-me buuzes e boortsog mongólicos porque no dia seguinte voltaria para casa.

Dica sábia que joguei solenemente às favas quando, em Chiang Mai, fomos ao Tong Tem Toh, restaurante popular especializado na culinária lanna, toda ela do norte, das montanhas, das tribos, de todo diversa da que se come em Bangkok e que é, claro, a que se reproduz como a única tailandesa.

Mandei às favas quando pedi meu porco fermentado com ovos acompanhado de uma salada de ovas de formiga. Camila encarou um curry de cogumelos. E olha que a viagem pela frente era da bagatela de 36 horas de estrada, de mãos dadas pelas nuvens, do Reino de Lanna ao Grajaú, onde tanta tamarindeira cresce.

Que porquinho maravilhoso e esquisito. Que cogumelos indômitos. Que formigas crocantes.






Soneto para Três Gatos Mortos

Isolda, fim de 2016


Este ano morreram-me três gatos
e nada lembra mais o fim de tudo
Morreu Garfunkel, gato da Camila
se tivesse vivido um dia apenas

teria sido feliz, sem tantas penas
teve no dorso os dedos da Camila
Morreu o velho Schin, gato da mãe
velhinho hipócrita intratável farsante

de seus não poucos momentos de cólera
não escapava nem sequer o Dante
Morreu também Isolda, sempre doce

rainha de uma Pérsia inexistente.
Morreram-me três gatos, penso absorto
e nada lembra mais o fim de tudo

que um gato morto

Tuesday, August 15, 2017

Crônicas Siamesas VI ::: Whiskey Thai



 

Não entendo o porquê de os tailandeses chamarem de whiskey o destilado feito de melaço que deveria naturalmente atender por rum. Reparem que na garrafa vem escrito rum, decerto por pressão internacional, acordos de exportação essas coisas. Mas no cardápio de hotéis e restaurantes continuam chamando de whiskey, provavelmente palavra de maior status.

Na Índia era a mesma coisa. Faziam (e fazem) milhões de hectolitros de "whiskey" de melaço, que a comunidade highbrow escocesa desprezava ou no máximo olhava com impaciência, como um monge observa adolescentes buliçosos voltando para casa de ônibus. Levou tempo até que a Índia viesse com um Amrut (aqui), a quem os monges escoceses são forçados a pagar respeito.

Na Tailândia não sei se há de fato whiskey de verdade. Pedi esse SangSom em nosso primeiro restaurante em Chiang Mai. Pedi uma dose e, para nossa surpresa, depois deixaram o resto da garrafa na mesa, como cortesia. Não precisava. Bebi com esforço, por puro amor à antropologia e à etnoculinária. Soube depois que deveria ter diluído em muita soda e gelo, o que seria um bom acompanhamento para o tempero dos curries. Não sei. Achei mais prudente voltar às pilsens.

(Ah, mas justo ali, relativamente próximo a Chiang Mai, já se produz vinho. De que falarei depois)

Monday, August 14, 2017

Crônicas Siamesas V : Entre as Kayan



Não sem hesitação fomos visitar as Kayan, a quem tolamente se referem como mulheres-girafas ou long-neck, termos pejorativos e por óbvio não endossados pelas próprias. Kayan é o que são, um subgrupo dos Karen (ou Karenis) vermelhos. Originárias de Mianmar, vivem no norte da Tailândia com o status de refugiadas. O que não queríamos era cair num zoológico humano, com turistas predadores avidamente enfiando suas câmeras goela abaixo dos colares dourados. E, de fato, há "zoológicos" assim, em que, num mesmo local, pode-se conhecer cinco grupos étnicos diferentes. Exatamente o que não queríamos. A visita que fizemos, não sem hesitação, esteve dentro dos princípios da ética e razoabilidade. Foi, mais ou menos, como visitar, aqui no Brasil, uma comunidade indígena ou quilombola. As mulheres estão ali com suas crianças vendendo seus artesanatos (praticamente o mesmo em todas as tendas, algo que percebi também no recente encontro de comunidades indígenas no Parque Lage). Vimos apenas um homem, que tocava uma espécie de rabeca. Só fizemos fotos com aquelas com quem interagimos minimamente e de quem compramos artesanato. Apesar de rápida, a experiência foi maravilhosa e já planejamos novos encontros.

Não sem hesitação, eu sonhava com uma foto da Camila rindo com uma Kayan, cheguei a sonhar com esta foto, em pb, na nossa sala. E logo na primeira tenda em quem paramos, Camila foi de tal modo conquistada pela Kayan e a conquistou de tal modo, que aconteceu.

Foi aquilo que Saramago tão lindamente descreveu no Memorial:

'Mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras. Já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta'.






















Sunday, August 13, 2017

Rio das Almas



há rio chamado
das almas
houve brejo chamado
das almas
para que poemas
já são poesia



Saturday, August 12, 2017

Nick Drake 4Ever



Se uma das minhas missões no planeta (que piegas isso) é divulgar Nick Drake, ontem estive em noite particularmente missionária, enviando por inbox algumas de suas canções para pessoas queridas, em quem sinto, por óbvio, que pode haver alguma ressonância.

Costumo dizer que Bryter Layter é um trabalho equivocado, coisa séria, pois isto seria 1/3 de sua obra. O que aconteceu foi uma produção que tentou vestir-lhe roupagem mais comercial. Nada de corinhos fáceis, mas um mood jazzístico e uns arranjos pesados que simplesmente nada tinham a ver com aquele menino triste de Burma. Se era para vender mais, não adiantou nada. Reconhecimento ele só teria quando "Pink Moon" foi usada num comercial da Volkswagen, anos depois de sua morte. E isso tudo, o sucesso póstumo, ele já previra, na assombrosa "Fruit Tree".

Mas voltando a Bryter Layter, bem, qualquer disco que tenha "One of these things first" e "Northern Sky" já será, em que pesem os equívocos da produção, uma daquelas joias que se coloca numa cápsula do tempo ou que se envia numa sonda para dialogar com as luas de Marte.

Eu ouço "Northern Sky" quinhentas vezes, tentando entender a voz de Nick.





Friday, August 11, 2017

Slade ::: Nobody's Fools



Camila não leia isto, mesmo porque não quero mesmo mais nada com a cigana do oceano, cândida pérola ou estrela da manhã, amores maristas adolescentes platônicos que tanto me perturbaram quando eu era isso: marista e adolescente e platônico. Mas os amores musicais conquistados na adolescência calam ainda mais fundo e ressurgem estranhamente numa manhã fria de agosto, hoje.

Este o caso do Slade, sobre quem já escrevi aqui. Aquele Nobody's Fool foi seguramente um dos discos mais ouvidos na vida, na vida de 1981, aquela sétima série complicadíssima em que eu descobriria o Rush, formaria a banda de rock Século XX com o Ronaldo e o Maguila, sonhava acordado com a inacessível Carla, aprendia teatro e marxismo com o colega João Ernesto e, com notas como 0,5 e 1,0, quase me reprovava na matemática do João Fernandes.

E comprava discos compulsivamente nos sebos do centro do Rio, aonde chegava de 217 ou 226, faminto, porque a grana vinha do dinheiro que a mãe dava para os lanches no colégio e que eu guardava para isto: comprar discos.

A prova de que é paixão adolescente mesmo está em que eu ache no mínimo idiota qualquer música que eu conheça, uma e outra que tenha me passado desapercebida no começo dos anos 80.

Continuo achando o Alive I um dos melhores, quiçá O, ao vivos da história do rock. E basta o lado A. E discos como este Nobody's Fool não tenho como defender senão dizendo que são pura paixão adolescente. Pureza em sua inteireza.




Crônicas Siamesas IV ::: Já comeu seu arroz hoje?



O cumprimento usual em tailandês, o nosso "Tudo bem?", é algo como "Já comeu teu arroz hoje?". Na China também, claro, dados o contato e o amor pelo grão. Me identifiquei demais com isso e mesmo adotei a saudação, fã de arroz que sou, fã de arroz com feijão, fã de arroz que possa receber o molho da comida. Na Tailândia esperávamos encontrar o maravilhoso arroz de jasmim e ele estava lá, nos esperando, de fato o rei da parada. Já o encontro com o 'sticky rice', o popularíssimo arroz grudento deles foi de todo inesperado, um blind date no sentido exato da expressão. No começo comparei-o ao nosso 'unidos venceremos', comparação de todo inexata posto que denota ironia para algo que deu ruim. O 'sticky rice' é grudento desde o saco. E é com ele que se faz a onipresente sobremesa (e lanche de rua) manga com arroz grudento.

Não podia faltar na nossa aula de culinária.





Thursday, August 10, 2017

Sustentei o olhar, com tanta raiva e revolta



Jamais esquecerei da tarde em que o Dante quis andar solto, sem mãos dadas, pela Rua Visconde de Santa Isabel, aquela mesma em que morei e que começa de um jeito e termina tão outra (aqui). O trecho em questão era precisamente aquele defronte ao antigo zoológico, que é como todos se referem àquele espaço, nem Negrão de Lima deveria chamá-lo de Recanto do Trovador. A calçada é minúscula e a quantidade de carros e ônibus, afrontosa. E o Dante, ainda não sei por que, querendo andar desgarrado da minha mão. Chamaram-me outro dia de dramático, mas se digo aqui que era uma questão de vida ou morte, estou apenas narrando um acontecimento de maneira jornalística / científica. E ele, nervosíssimo, recusando-se a me dar a mão e eu, esgotadas palavras doces de persuasão, ralhando exasperado. Houve momento em que sentei-o em uns degraus que por lá havia. Ele sentou-se e eu também. Aí levantei os olhos e vi que duas mulheres, esperando para atravessar, me olhavam com os olhos mais críticos que então conseguiam ter. Eu entendi tudo. Eu sustentei o olhar, com tanta raiva e revolta, achando que poderia pular no pescoço de uma ou, menos, irromper numa torrente de palavrões, se ousassem dirigir críticas a mim. Eu estava exausto e frustrado e ali tive raiva delas. Mas também nesse momento dei-me conta de que podia muito bem ser uma dessas mulheres, olhando criticamente para o que julgam ser maus tratos. Tanto que já estive nesse lugar.

A moral da história poderia ser 'não julgue pelas aparências', mas isso é muito pouco.


Wednesday, August 09, 2017

Gozando Junto XXVIII :: Tailândia



Esta série anda meio descuidada, sendo as três últimas postagens estas aqui, aqui e aqui. Não foi nada difícil amealhar estas, já que muitos querem fazer registros daqueles tão lindos templos. Com efeito, quase todas aqui são em templos (budistas, escusado lembrar).

A foto pode pecar em sua nitidez. Mas é que 'gozando junto' é assim: tem que ser ligeiro, pois quase sempre há desconfiança. E também sorrisos surpresos.